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Uso de celular e rede social prolonga sade mental de idosos

 

Sem saber, Magali está também agindo diretamente sobre o cérebro dos alunos. É o que mostram estudos recentes sobre efeitos positivos do uso de tecnologia por idosos na preservação e na ampliação das suas funções cognitivas, como memória, velocidade de resposta e raciocínio.

Mario Miguel, professor do departamento de fisiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, diz que o contato com a informática provoca, inclusive, aumento no hipocampo, área do cérebro fundamental para a cognição e a memória, segundo estudo publicado em 2016.

O pesquisador diz que há duas grandes vertentes hoje em relação ao uso de tecnologia para estimular o cérebro. Uma delas é o de pacotes prontos de aplicativos e softwares para treinar áreas específicas, como cognição, memória episódica, memória operacional, foco e atenção.

É um mercado que movimenta US$ 1 bilhão ao ano, nos cálculos da SharpBrain, uma das principais consultorias do setor, e deve se multiplicar por 6 até 2020.

Outra vertente é adicionar a tecnologia no dia a dia, não com softwares específicos, mas com aqueles usados para agilizar e ganhar eficiência no cotidiano. “Isso vai garantir autoestima, independência, engajamento social.”

O pesquisador explica que os ganhos se dão pela repetição. Sem uso, a perda de neurônios é mais rápida.

Quando o uso da tecnologia no dia a dia melhora a qualidade de vida, cria-se um ambiente afetivo positivo, aumenta a adesão do idoso às novas práticas e ele mantém suas faculdades cognitivas.

Miguel diz que as duas vertentes são complementares, mas que vêm crescendo entre os cientistas a recomendação de inserir a tecnologia no dia a dia. É justamente a proposta da professora Magali Rossini, 52, que há cinco anos dá aulas na Fundação Sérgio Contente para seis turmas e 126 alunos acima de 60 anos —o mais velho já passou dos 90.

As aulas começam do básico: como usar o mouse. Por mais simples que pareça, é outra atividade com muito potencial para estimular o cérebro, diz o professor Miguel.

“Hoje em dia já sabemos que há sobreposição total entre os circuitos neurais envolvidos em um ato motor complexo e nas tomadas de decisões”, diz ele. Toda vez que se aprende um movimento novo, o cérebro melhora sua capacidade em outros aspectos, incluindo o cognitivo.

“No curto prazo, só de aumentar o fluxo sanguíneo para a região do cérebro sob demanda já melhora o desempenho cognitivo. No longo prazo, isso gera plasticidade em todas as áreas.”

O acesso à tecnologia e internet ainda é bem menor entre os mais velhos, em comparação com os mais novos, mostra pesquisa sobre hábitos e comportamentos das diferentes faixas etárias, feita pelo Datafolha.

São 72% os brasileiros que têm conta em rede social, índice que vai de 97% entre os com até 24 anos até 32% entre os que têm mais de 60. Mas a fatia mais que dobra quando o idoso é mais rico ou mais escolarizado: 60% e 71%. 

E, se estão em menor número, os idosos são usuários mais frequentes de tecnologias como os jogos, mostra pesquisa do Instituto Pew, dos EUA: 36% dos gamers com mais de 60 anos jogam todos os dias, a maior assiduidade entre as faixas etárias.

Depois de aprender a usar o mouse e digitar, os alunos de Magali aprendem a navegar na internet e criam seus endereços de email e suas contas em redes sociais.

“Parece que voltam a viver novamente, porque encontram amigos do passado, familiares que estão distantes e podem conversar. Eles se renovam 50 anos”, diz ela.

A questão importante agora, segundo Miguel, é descobrir se há transferência dos ganhos obtidos com o uso da tecnologia também no longo prazo. “Se um velhinho fica craque no sudoku, por exemplo, será que isso melhora também sua capacidade em outras áreas?”, exemplifica o professor da UFRN.

Empresário se inspira na própria mãe para criar aulas gratuitas

Nem só por diversão os idosos procuram tecnologia: alguns querem aproveitá-la no trabalho, já que ainda têm planos profissionais. É o caso do químico Antonio Gomes, 77, que, depois de se aposentar, abriu uma produtora de vídeo, ainda no tempo do VHS. Trabalhou na área durante 15 anos. “Sou muito perfeccionista, e acabava não lucrando quase nada.”

O advento da tecnologia digital, porém, fez voltar sua curiosidade pelas filmagens. “Quero aprender a fazer vídeos com o celular e colocar no YouTube”, diz ele, que faz aulas na Fundação Sérgio Contente.

Aposentado há quase dez anos, o projetista de elétrica José Lourival Barreiro, 69, faz três cursos simultaneamente: informática básica, no Instituto Porto Seguro, programação e técnicas para engenharia eletrônica.

Antes disso, já cursou informática na Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati), da USP. “Quero ficar atualizado. Ainda não decidi parar de trabalhar. Só não estou empregado agora porque está essa crise no país.”

Coordenador da Uati, o médico Egídio Dórea diz que o interesse por cursos de informática é crescente. O programa, que tem 4.000 vagas, recebe pessoas de todas as classes sociais, com predominância da classe B.

Nas disciplinas curriculares, segundo ele, profissionais maduros ainda em atuação se inscrevem em matérias regulares da USP para atualizar conhecimento. “Um engenheiro cursa materiais pesados e um advogado cursa história do direito, por exemplo.”

Dórea relata que alguns dos alunos chegam com dúvidas sobre a capacidade de se encaixar numa classe mais jovem, mas que os resultados têm sido bons para alunos de todas as faixas etárias e para professores.

“Eles têm uma experiência profissional que acrescenta muito às aulas teóricas, além de servir de exemplo para os mais novos. São também muito participativos e fazem muitas perguntas, enriquecendo as aulas”, diz ele.

Nos cursos de informática da Fundação Sérgio Contente é grande a procura pelas aulas gratuitas. A ideia de ensinar informática para idosos surgiu quando o próprio Contente, empresário no setor de softwares, percebeu que sua mãe, Maria da Conceição, 83, não sabia usar computador nem celular. “Os mais velhos ficam com medo de incomodar e não pedem ajuda.”

No começo, tentou ele mesmo ensinar a mãe e um grupo de amigas dela, mas fracassou. “Percebi que coisas que para nós são óbvias, como usar o mouse, para eles não são naturais.”

Com a contratação de professores e uma metodologia de aula montada para encorajar e engajar os mais velhos no aprendizado, o interesse começou a crescer. A demanda foi tão grande que chegou a haver lista de espera com 1.000 pessoas. A entidade abriu novas salas de aula e, agora, a fila tem cerca de 200 nomes.

Fonte: UOL

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