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O novo lar dos idosos

 

Com a foto do cantor John Lennon na mão, Nair Mendonça Ribeiro Salomão, 101 anos, abre um sorriso. A brincadeira para estimular a memória, em que é preciso reconhecer o artista estampado nas cartas, é uma das atividades diárias propostas aos moradores do Cora Residencial, de São Paulo, voltado para pessoas com mais de 60 anos. Em uma mesa no hall do prédio, ela põe o cartão com a imagem do ex-Beatle de lado. Quer contar sua história. “Sou do tempo do suicídio de Getúlio Vargas.” Depois da morte do marido, passou a morar com a filha, mas se incomodava ao percebê-la sobrecarregada com as responsabilidades da família e os cuidados com a mãe. Nair pediu que a levasse a uma casa de idosos, e o combinado foi que ficaria uma semana para testar. Já tinha 100 anos e lá ficou. No local, vive como se estivesse em um condomínio fechado: tem seu quarto e autonomia para sair e voltar quando quiser. Mas dispõe também de serviços específicos, atendimento médico 24 horas e alimentação com nutricionista, além de uma programação que afasta a alcunha de casa de repouso com atividades que vão de boliche a “zumba sênior”.

Chamadas de instituições de longa permanência para idosos, os residenciais voltados para a terceira idade tentam quebrar a imagem estigmatizada dos asilos ao criarem um híbrido de condomínio com centro de convivência. O Cora Residencial, com sete unidades na capital paulista, é um deles. Os valores mensais ficam em uma média de R$ 7,5 mil dependendo do tipo de quarto, que pode ser individual, duplo ou triplo, e do tratamento. O modelo existe em diferentes cidades brasileiras e é inspirado em empreendimentos que são praxe em outros países, como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra (leia mais no quadro ao lado), onde a população idosa cresce gradativamente. Assim como no Brasil, cuja taxa da população com mais de 60 anos foi de 9,8% para 14,3% de 2005 a 2015. Na verdade, aqui o aumento é mais rápido do que em países desenvolvidos e chegará a 35% em 2070, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Médico geriatra e especialista em doenças cognitivas do envelhecimento, Rodrigo César Schiocchet da Costa afirma que a depressão, doença de grande incidência entre idosos, pode atingir níveis mais altos entre pessoas que vivem em instituições de longa permanência. “Os estudos que mostram isso focam em asilos tradicionais, com perfis diferentes dos residenciais para idosos”, afirma. A ideia desses novos centros, segundo Costa, é benéfica no sentido de estimular o desenvolvimento cognitivo, o convívio social e a qualidade de vida geral. Com isso, evita-se quadros depressivos, que podem ser fator para uma série de outras doenças na terceira idade. “Desde a alimentação à atividade física, tudo deve ser pensado para a saúde física e mental.” Segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, divulgada em 2014, a faixa etária entre 60 e 64 anos é a maior entre todos os brasileiros diagnosticados com depressão: 11% do total.

Amor da família

Bem resolvida com sua escolha de moradia, Ana Maria Benavente, 80 anos, não titubeia ao afirmar que viver em uma casa geriátrica nada tem a ver com abandono familiar. “Meu filho me visita regularmente, ele me adora”, diz, rindo. Morando sozinha até sete meses atrás, um dia levantou da cama e caiu. Foi quando achou que valeria tentar o residencial para sua faixa etária. “Gosto daqui”, diz ela, cabelos loiros e sobrancelhas desenhadas com lápis. “Mas prefiro morar sozinha, gostava mais da minha casa, do meu lugar.” Por enquanto, porém, o plano é continuar vivendo no residencial. “Fui pintora, tinha um ateliê, e posso fazer isso aqui. Hoje mesmo tem aula de teatro, estou animada.” Para Costa, o tabu sobre casas para idosos vem sendo quebrado com as novas instituições, mas ainda é visto com ressalvas, principalmente pela família. Aos poucos, os asilos deixam de ser relacionados a abandono e passam a funcionar como centros de lazer e de cuidados. Um lugar melhor tanto para hóspedes quanto para familiares.

Fonte: Isto é

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