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As lições dos supercentenários

 

Chegar ao centésimo aniversário é sempre um bom motivo para comemorar, mas hoje em dia existem tantas pessoas com essa idade que os cientistas nem se importam mais em rastrear todas elas.

Em 2012, a ONU estimou que existiam 316,6 mil pessoas com mais de 100 anos no mundo. Até 2050 este número deve chegar a mais de 3 milhões. Uma delas era o português Manoel de Oliveira, que morreu aos 106 anos, após ter feito cerca de 60 filmes – o mais longevo cineasta de que se tem notícia.

Já o clube dos chamados “supercentenários”, aqueles que vivem 110 anos ou mais, é mais exclusivo. Segundo o Gerontology Research Group, empresa em Los Angeles que mantém uma base de dados sobre as pessoas mais velhas do mundo, existe hoje apenas 53 indivíduos vivendo nessa faixa etária. Até o último dia 1º de abril, a mais velha era Misao Okawa, uma japonesa que morreu aos 117 anos.

Okawa e outras quatro mulheres, três americanas e uma italiana, nasceram em 1898 e 1899. Ou seja, viveram duas viradas de século. O que as torna especial é que não haverá no mundo alguém como elas até o ano 2100. E devemos perdê-las dentro da próxima década, já que ser supercentenário é um título bastante efêmero.

Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 20,6 milhões de idosos. Número que representa 10,8% da população total. A expectativa é que, em 2060, o país tenha 58,4 milhões de pessoas idosas (26,7% do total).

O médico cardiologista Mario Maranhão disse durante o Seminário Lide Saúde, em São Paulo, que o Brasil terá mais de um milhão de habitantes acima dos 100 anos ainda neste século. Ele apresentou um estudo de sua autoria e garante: a longevidade do brasileiro está crescendo muito. “Em quatro décadas a parcela mais velha da nossa população será do mesmo tamanho do grupo de pessoas de 15 a 49 anos. O Brasil é um dos cinco países que terão mais de um milhão de habitantes acima dos 100 anos ainda neste século”, afirmou.

De acordo com o estudo apresentado pelo médico, quando levado em consideração o mundo inteiro, a expectativa de vida das pessoas mais que duplicou: passou de 31 para 70 anos. “Até o fim do século o homem será bem mais longevo, só não sabemos o quanto”, declarou. Para ele, o fato revela uma conquista da civilização, que tem tomado cuidados especiais com a saúde e combatido doenças como diabetes, mal de Alzheimer, artrite e câncer.

Mais do que saúde

O avanço implacável do tempo significa que existe uma rotatividade entre os indivíduos mais velhos do mundo, fazendo com que especialistas de várias áreas (biologia, história e antropologia cultural) se atropelem em busca de aprender tudo o que podem sobre essas pessoas extraordinárias enquanto elas ainda estão entre nós.

E elas são capazes de nos ensinar muito mais do que seus segredos de saúde. O motivo mais óbvio para estudar os idosos com mais de 110 anos é encontrarmos pistas sobre o envelhecimento. “Os supercentenários parecem ter nascido com relógios biológicos mais lentos do que o resto de nós”, afirma Stuart Kim, biólogo de desenvolvimento na Universidade Stanford, nos Estados Unidos. “Quando essas pessoas têm 60 anos, parecem ter 40; quando têm 90, aparentam 70. E também agem como se tivessem 20 anos a menos.”

Um exemplo é Besse Brown Cooper, nascida no Estado americano do Tennessee em 1896 e que viveu 116 anos e 100 dia, batendo o recorde como a décima pessoa a viver mais tempo. Seu neto, Paul Cooper, dirige uma organização de caridade com o nome da avó e que oferece apoio a supercentenários.

Para ele, Besse nunca pareceu velha: não tinha problemas de saúde, morava em casa e cuidava do jardim até seus 105 anos. Foi uma devoradora de livros até os 113. “Minha avó me mostrou que envelhecer com saúde é algo fenomenal, não uma coisa para se temer”, diz.

Pesquisadores estão tentando revelar os alicerces que sustentam a extrema e saudável vitalidade de Besse e outros idosos. Até agora, eles descobriram que a hereditariedade é um dos principais indicadores, por exemplo, se os ancestrais também viveram por muitos anos.

“Não há como chegar aos 110 se você não ganhar na loteria genética”, afirma Jay Olshansky, professor de saúde pública da Universidade de Illinois. Mas nem ele nem seus colegas ainda conseguiram encontrar quais os genes responsáveis pela longevidade extrema, principalmente porque é difícil conseguir uma amostra adequada devido ao pouco número dos poucos supercentenários.

No entanto, quanto mais indivíduos chegarem aos limites da expectativa de vida, mais sólidos tendem a serem os estudos a respeito. Segundo Thomas Perls, professor de medicina e geriatria na Universidade de Boston, essas pesquisas “vão nos dar pistas sobre como ajudar os idosos a evitar ou retardar doenças como Alzheimer, derrames, câncer ou problemas cardíacos”.

Valor histórico

Mas o valor dos velhinhos com mais de 100 não tem a ver somente com nosso interesse em chegar à mesma idade com a mesma disposição e com menos doenças. Todos os idosos detêm uma riqueza de conhecimentos e alguns são tidos como “tesouros históricos vivos”.

Seus relatos e experiências pessoais têm sido cada vez mais registrados recentemente, segundo Doug Boyd, diretor do Centro de História Oral da Biblioteca da Universidade de Kentucky.

“É importante colher depoimentos e guardá-los integralmente porque eles nos ajudam a entender o sentido de muitos fatos”, afirma. “Frequentemente, essas histórias têm uma complexidade de sentido que se perde quando o relato é feito por terceiros.”

Boyd está digitalizando toda a sua coleção de histórias verbais, com mais de 9,4 mil relatos que serão disponibilizados em uma base de dados gratuita. O acervo recebe cerca de oito mil visitantes por mês. Conforme esses depoimentos vão chegando às salas de aula, a podcasts e às mídias sociais, eles mudam a maneira como pensamos a História.

Anos de experiência também dão aos idosos uma visão peculiar sobre os eventos atuais. “É uma perspectiva bastante diferente”, afirma Perls. A sabedoria dos mais velhos é algo que algumas culturas fora do Ocidente valorizam há muito tempo. No Japão, 43% dos idosos vivem com seus filhos – um número que vem caindo drasticamente nas últimas décadas mas que ainda supera em muito o índice ocidental.

Mayumi Hayashi, pesquisadora de gerontologia do King’s College London, cresceu em uma casa com três gerações. Para ela, seus avôs, com seu apego à harmonia, à hierarquia e ao imperador, ofereciam uma janela para o Japão do passado. “Crescer perto deles me tornou mais ciente dos problemas dos idosos e também me mostrou como o Japão rapidamente se rendeu a costumes americanizados.”

Estilo de vida

Um dos maiores equívocos em relação ao envelhecimento é pensar que ele automaticamente leva a problemas físicos e mentais. Mas Olshansky e seus colegas descobriram que a suposta ligação entre a decadência da saúde e a idade não é realmente comprovada.

“Muitos dos problemas que relacionamos ao envelhecimento são na realidade provocados não por estarmos mais velhos, mas pela maneira como vivemos – se fumamos, bebemos demais ou somos obesos”, diz Perls.

Apesar de toda a contribuição que os idosos podem trazer, a velhice ainda é vista como algo a ser ignorado ou temido. É possível que o preconceito nunca desapareça completamente, mas é provável que a idade em que a discriminação comece seja avançada por mais algumas décadas. “Quanto mais pessoas com seus 80 ou 90 anos levarem vidas ativas e interessantes, mais diremos ‘os 70 são os novos 50’ ou outras idades”, afirma Perls.

Fonte: DM

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