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Idosa de 73 anos vira estagiária em Peruíbe após largar a aposentadoria

 

Uma aposentada de Itanhaém, no litoral de São Paulo, resolveu abandonar a aposentadoria e, aos 73 anos, começou a encarar uma universidade. Elisabeth Doce só conseguiu realizar o sonho de ganhar um diploma de direito após os filhos terem se formado e, mais do que isso, tornou-se uma das estagiárias mais velhas em atividade no Brasil.

Elisabeth Elfrida Domingues Doce trabalhou por muitos anos em setores administrativos de grandes empresas. Depois de se aposentar, ela ficou longe do mercado de trabalho, mas não se contentava apenas em prestar serviços beneficentes ou se dedicar à cultura. “Eu trabalhei dos 16 aos 56 e fiquei parada uns 10 anos e não me conformei. O trabalho era mais importante. Eu achava que seria o melhor remédio para a minha saúde”, explica.

Para tentar fugir do ponto comum e dar um novo rumo em sua rotina diária, a aposentada resolveu voltar a estudar, o que já era um sonho antigo que pôde ser concretizado. Com cinco sobrinhos e quatro filhos, ela teve que educar as crianças sozinha e não teve tempo de se dedicar aos estudos anteriormente.

Para realizar o seu sonho, ela fez o Enem e conseguiu uma vaga no curso de Direito em uma universidade em Peruíbe, mesmo morando em Itanhaém. Depois, foi buscar experiência na área.“Tive que procurar um estágio não só pela renda, mas porque o estágio favorece o aprendizado. Uma coisa é você aprender uma lição, outra coisa é você enfiar a mão na massa”, diz.

No segundo ano da faculdade, “Beth” como é conhecida por todos, passou a fazer parte da turma de estagiários do Fórum de Peruíbe. Ela trabalha no cartório e recebe as mesmas tarefas que os colegas mais jovens. O chefe dela, o supervisor de serviços Daniel Santana, acompanha o trabalho de perto. Para ele, ter uma estagiária bem mais velha é uma novidade. “Pra gente é uma experiência nova também. Essa é uma novidade do próprio tribunal, da inserção do pessoal da melhor idade e tem sido uma experiência bem válida pra gente”, diz. Mas isso não significa que não haja cobrança como qualquer outro funcionário. “A gente tenta passar para ela as atividades inerentes ao próprio estagiário, sem diferenciação, sem qualquer privilégio por conta da idade. O serviço e o volume de trabalho aqui é muito grande e ela é bastante atenciosa, aplicada e está ensinando bastante para a gente”, elogia Daniel.

Para os colegas de trabalho de Beth é bem diferente trabalhar com uma aprendiz de 73 anos. Os escreventes do Fórum de Peruíbe contam que ela se esforça bastante para realizar o serviço e estar sempre adquirindo novos conhecimentos. Eronice do Nascimento é que passa as tarefas para Beth. Ela conta que o relacionamento exige cuidados, afinal Beth é uma senhora, mas que isso não tem sido um problema. “Ela pega bem o serviço, é bem esforçada. Eu passo as coisas para ela, ela faz no tempo dela, no limite dela, mas faz e no final do dia sempre traz. Eu procuro sempre dar um tempinho para descansar e a gente está indo assim. Até agora está dando certo”, garante ela. Eronice acredita que para ser estagiário não tem idade, mas sempre é preciso verificar o ambiente de trabalho, que as vezes pode ser bem estressante. “Eu conheço certos estagiários que se cansam de dupla jornada e a dona Beth, com a idade dela, ela faz essa dupla jornada. Ela trabalha aqui e ainda faz a faculdade”, diz.

Outros funcionários do Fórum não tem muito contato com a estagiária Beth, mas observam seu trabalho diariamente, mesmo que de longe. Para muitos, ela é um exemplo de profissionalismo e força de vontade. “É bonito de ver o interesse dela pelo trabalho, em querer aprender, fazer faculdade nessa idade. Espero que quando eu chegar nessa idade, eu esteja trabalhando também”, afirma a escrevente Rosilene Alves. A estagiária de administração Esther Caroline, de 18 anos, também admira Beth. “Ela é um espelho na minha vida, pela idade que ela tem, pela disposição que ela tem. Isso me incentiva mais ainda a lutar pelos meus objetivos, porque independente da idade dela, ela tem muita disposição, ela não tem vergonha”, afirma a jovem.

Vendo os outros estagiários, Beth não nega que haja um conflito de ideias por conta da diferença de idade. “Há choque de gerações. A gente pensa que não. Mas não estou convivendo com filhos, netos e nem bisnetos e sempre a gente, da terceira idade, tem outros tipos de conceitos, de normas. Então há um choque porque é uma outra sociedade”, afirma a idosa. Mesmo assim, Beth diz que isso não impede que o trabalho seja realizado da melhor forma possível. Ela comenta que se sente muito à vontade trabalhando no Fórum, onde tem essa oportunidade de conhecer a profissão mais de perto. “Eu pego um processo, eu leio, pego um arquivo, desarquivo, atendo o balcão. O mais importante foi mesmo o contato com os processos. O desenvolvimento você aprende na escola. Aqui você descobre o que é uma petição, entende o que é um divórcio”, comenta.

Beth ainda tem mais três anos pela frente na faculdade e ainda deve passar por outras fases do estágio. A senhora de 73 anos ainda quer conhecer muito mais profissão que ela pretende seguir e se tornar uma advogada de sucesso.

Estagiários mais velhos

A história de Beth parece ser rara, mas há muitas pessoas acima de 40 anos que estão procurando oportunidades de estágio em busca de novas experiências no mercado de trabalho. De acordo com o Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), uma das instituições que administra programas de estágios e aprendizagem, há quase 6 mil estudantes com esse perfil em todo o Brasil.

A Baixada Santista também segue essa tendência. Segundo dados do CIEE, Itanhaém é a cidade da região com o maior número de estagiários acima dos 40 anos. No total, são 25. Em seguida vem Peruíbe, com 24 estagiários do mesmo perfil. Santos tem 19, Praia Grande já contratou sete, São Vicente está com seis e Cubatão com cinco. Guarujá tem apenas um estagiário acima dos 40 anos. Já em Mongaguá e Bertioga não há estagiários acima dos 40.

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