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Aos 86 anos, idoso cursa a 6ª série e corta cabelos de doentes no Paraná

 

Cabelos brancos, mãos trêmulas, pele enrugada devido à idade, mas com uma memória invejável. Essas são apenas algumas descrições do idoso Josué Bento Pereira que, aos 86 anos, cursa a 6ª série do Educação de Jovens e Adultos (EJA) e concluiu um curso de oratória. Além disso, dedica boa parte do seu tempo para visitar doentes, um trabalho voluntário que desenvolve como ministro da igreja católica do bairro Floresta, em Cascavel, no oeste do estado.

Em uma sala pequena, em frente à casa onde mora e local usado por ele desde 1983 para cortar cabelos e fazer a barba dos clientes, é que o idoso contou ao G1 sua paixão pelos estudos e por ajudar os doentes. 'As coisas mais importantes na minha vida são estudar e ajudar os mais necessitados', disse.

Viúvo há 15 anos e pai de cinco filhos – um já morto –, Josué começou a estudar há cinco anos na Escola Municipal Dulce Andrade Siqueira Cunha e afirma nunca ter faltado a uma aula. 'Nunca faltei uma aula na minha vida. Lá na minha escola não tem essa história de faltar. Os outros faltam, mas eu não. Se eu faltar uma aula, eu já estou perdendo e o prejuízo é meu. Hoje, o aluno acha que uma aula não é nada. Eu sinto que ele acha que não é nada, mas a pessoa perdendo uma aula na vida, já está perdendo muita coisa. A gente não aprende tudo de uma vez só. A gente vai aprendendo um dia após o outro', afirma.

O idoso lembra que conseguiu aprender a ler e a escrever em apenas três meses de estudos, ainda quando era criança, mas não deu continuidade por falta de oportunidade. “Quando eu cheguei a Cascavel, em 1983, eu tinha muita vontade de voltar a estudar, mas a freguesia no salão era muito grande. Eu atendia, em média, 400 pessoas por mês. Levantava às 8h da manhã e só parava às 22h”, conta.

Com o passar dos anos, a clientela do seu Josué foi diminuindo e, em 2009, decidiu que precisava voltar aos bancos escolares. “A gente vai vendo os exemplos, vai acontecendo com nós mesmos, vai vendo os fracassos e nós sentimos falta que sem estudo ninguém é nada. Faltou estudo, faltou tudo. A pessoa que não tem estudo não tem emprego, não tem sossego na vida, ele não tem saída, fica que nem um escravo. Vai arrumar emprego e não acha, vai se aposentar e não tem aposentadoria para ele”, garante o estudante.

Sempre com um sorriso no rosto e firmeza nas palavras, Pereira afirma que leva a sério os estudos e guarda todos os cadernos dos anos anteriores com carinho. Segundo ele, os estudos são a “coisa mais importante da vida” dele. “Eu entrei para estudar, não foi para brincar. Quando eu entrei ali na escola, a professora falou assim: 'Josué, você quer estudar um dia por semana, dois dias, ou como que você quer?' Eu disse que não quero faltar um dia. Eu não estudo seis dias por semana porque não tem aula, não tem professor”, brinca ele.

Curso de oratória

Ao G1, ele contou que começou a fazer o curso de oratória após receber o convite de um amigo. “Eu nem sabia que existia esse curso. (...)Eu consegui uma folguinha nas aulas e comecei”. As aulas duraram dez dias e o idoso também não faltou a nenhuma aula, segundo ele. “Eu gostei muito porque a gente aprende e vê coisa que nunca viu na vida. Eu aprendi muitos gestos, aprendi a falar”, assegurou. Ele também afirmou que as aulas o ajudaram a celebrar os cultos. “Já fiz tantas celebrações, e gestos de celebrações eu não tenho. Eu não tinha. Agora, quando chegar o dia de celebrar, eu sei”, disse empolgado. “Eu gostei muito. Era uma coisa que eu queria fazer”, complementou.

“Eu pretendo ir até onde eu tiver saúde, que estou andando, eu quero estar na escola. Eu digo que eu quero estudar até o segundo grau, mas eu já não garanto. Mas a minha vontade de estudar nunca vai acabar, só quando eu morrer. E ainda quero fazer outro curso de oratória”, afirma.

Cuidar dos doentes

“Olha, toda a vida eu atendi doentes. Há vinte anos corto cabelos nas casas dos doentes. Hoje diminuiu. Corto um, dois, três. Só tem um cidadão que corto a cada oito dias”, diz se referindo ao trabalho voluntário que realiza há anos na igreja.

Pereira também fala de Deus para as pessoas doentes que visita. Toda sexta-feira ele sai às 8h30 de casa e só retorna às 12h. “Na sexta-feira passada eu não fui. Estava chovendo e muito frio. Dentro desses anos que estou trabalhando com doentes, foi a primeira vez que não fui visitar eles. E eles sentem faltam de mim”, garante.

Ele também contou que a igreja pediu se ele gostaria de diminuir o número de visitas aos doentes devido à idade, mas ele não concordou. “Eu tenho tempo, eu posso. Eu não quero parar. É o melhor trabalho que um ministro pode fazer na vida. Visitar os doentes. Me sinto tão bem. Eu vou, bato papo com eles. E ainda acho que não estou fazendo nada”, argumenta.

Fonte: G1

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